Sobre o Ruy Archive

Estávamos sentados à mesa eu, Ruy e Mirian, que me apresentou “o cara”.

Da minha posição lia-se na parede: “Um bom vinho é poesia engarrafada - Robert Louis Stevenson”.

Seria a descrição perfeita daquele almoço, agradável como um bom vinho, se não fosse o teor despretensioso da conversa que de poesia não tinha nada. Estava mais para uma boa e velha prosa, daquelas que os caipiras medem em dedos.

Era eu ali frente a frente com um dos maiores artesãos da arte de escrever publicidade com inteligência e que não tinha a menor pretensão de parecer inteligente, no melhor estilo Ruy Lindenberg.

Falávamos dos mais variados assuntos. Quando ganhei certa intimidade, afinal eu era um intruso ali naquele almoço, um assunto específico apareceu:

Faltam referências, falta não apenas o título (que morreu), mas falta também o texto. Faltam mais pessoas achando que o consumidor não é analfabeto.

Foi a deixa para eu apresentar a ideia do Ruy Archive.

Ele me olhou, deu um sorriso e despejou toda a humildade que se esconde por detrás dos óculos fundo de garrafa:

- Isso é bobagem. Quem quiser escrever bem tem que ler os grandes mestres, as grandes obras. Eu não sou nada demais.

Argumentei:

- Concordo, Ruy. Quem quiser escrever bem precisa ler muito, principalmente os grandes. Mas o texto publicitário tem a sua estrutura. Segue uma linha de raciocínio própria.

Enquanto ele me olhava, continuei argumentando:

- É como a poesia, a dramaturgia e assim por diante. Todos têm a sua estrutura. Ninguém pode escrever bem uma poesia sem conhecer os grandes poetas. O mesmo com a dramaturgia. Por isso, eu acho muito difícil formar um bom redator se ele não conhece os grandes do texto publicitário...

Ele deve ter me achado meio maluco, mas no final acabou comprando a ideia e até fez um shortlist, o Ruy’s Shortlist.

Aproveitando o momento de descontração, eu ataquei com meu lado tiete e pedi uma dedicatória na minha cópia do livro Tem gente achando que você é analfabeto, e você nem desconfia.


O Ruy Archive nasceu de uma das muitas inquietações que tenho com relação ao panorama atual da publicidade. Dentre elas, o fato de que as pessoas se esqueceram que escrever bem e contar boas histórias tem a ver com a essência da propaganda e independe de formato.

Espero que esse arquivo possa ajudar não apenas as novas gerações, mas também possa relembrar a atual de como podemos fazer coisas incríveis quando deixamos de tratar o consumidor como analfabeto.

Pedro A. Andrade


Esse projeto só foi possível graças a:

Mirian Tsujita, que me apresentou ao cara e me emprestou alguns anuários para catalogar os trabalhos.

Ruy, pela gentileza das palavras e pelo shortlist.

Valdir Bianchi, que, mesmo sem saber, me emprestou vários anuários para catalogar trabalhos.

Escola CUCA, que também me emprestou alguns anuários para completar o arquivo.

Clube de Criação, pela iniciativa de catalogar há tantos anos os melhores trabalhos do Brasil e por me emprestar a peça que faltava para montar o quebra-cabeça do arquivo.

Rafa Coelho, que quebrou a cabeça me ajudando a acabar com os bugs.